Amaterasu

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Para quando você quer voltar e já não sabe como aparecer de novo.

Quanto tempo de silêncio é preciso para não saber mais como voltar?

Os deuses explicaram o tamanho do estrago e pediram que ela saísse. Nada aconteceu. O que abriu a caverna foi uma festa que não falava dela.

Frame do filme Depois fica difícil voltar

A história

O mito está registrado no Kojiki, de 712, e no Nihon Shoki, de 720, os dois livros mais antigos do Japão.

Amaterasu, a deusa do sol, tinha um irmão chamado Susanoo, deus das tempestades.

Susanoo destruiu os campos de arroz da irmã, sujou os salões do palácio e, por fim, arrancou o couro de um cavalo e o jogou pelo teto do salão onde as mulheres teciam. Uma delas morreu no susto.

Amaterasu não respondeu. Entrou numa caverna, empurrou uma pedra sobre a entrada e ficou ali.

O mundo escureceu. As plantações pararam. Os espíritos maus se espalharam pela terra, e a noite não terminava mais.

Oitocentas miríades de deuses se reuniram no leito seco de um rio para pensar no que fazer. Chamaram os galos que anunciam o amanhecer. Penduraram joias e panos numa árvore. Forjaram um espelho e o colocaram diante da entrada.

Depois começaram uma festa.

Uma deusa chamada Ame-no-Uzume virou um tonel de cabeça para baixo, subiu nele e dançou batendo os pés até a roupa se soltar do corpo. Os oitocentos deuses caíram na gargalhada, e a terra inteira tremeu com o barulho.

Dentro da caverna, Amaterasu estranhou. O mundo estava no escuro e alguém ria. Perguntou de onde vinha aquilo.

Uzume respondeu que havia ali fora uma deusa mais luminosa do que ela.

Amaterasu empurrou a pedra um pouco e olhou pela fresta. Viu o próprio rosto no espelho, e chegou mais perto para ver melhor.

Foi então que um dos deuses a segurou pela mão e a puxou para fora. Outro esticou uma corda atrás dela, fechando o caminho de volta.

A luz voltou ao mundo.

O filme

Um minuto diante de uma parte da história.

Depois fica difícil voltar · 1:16

A carta

Quando essa história encontra uma vida de agora.

Depois fica difícil voltar

Ouvir a carta

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Tenho mensagens que não respondi no dia em que chegaram.

No primeiro dia, eu ainda poderia ter escrito qualquer coisa. No segundo, já parecia necessário explicar a demora. Depois de uma semana, a resposta precisava começar com um pedido de desculpas. Depois de um mês, parecia exigir a história inteira.

Em algum momento, eu já não sabia se continuava em silêncio pelo motivo inicial ou pela vergonha de ter ficado tanto tempo sem responder.

O silêncio vai ficando mais difícil de romper à medida que cresce.

Isso não acontece apenas com mensagens. A gente falta duas vezes a alguma coisa e começa a achar estranho aparecer na terceira. Afasta-se de um grupo e não sabe mais como entrar na conversa. Prolonga uma briga porque a primeira frase banal pode parecer uma rendição. Diz "não volto mais" e depois descobre que voltar exigiria admitir, diante de todo mundo, que mudou de ideia.

Às vezes, continuamos dentro de uma decisão que já não queremos mais porque não sabemos sair dela sem dar explicações.

É aí que a história de Amaterasu me encontra.

Depois de ser ferida pelo irmão, ela se fechou numa caverna e deixou o mundo no escuro. Os outros deuses pediram que saísse, explicaram o tamanho do estrago, disseram que todos precisavam dela. Nada aconteceu.

Amaterasu só moveu a pedra quando ouviu uma festa do lado de fora e ficou curiosa com a notícia de que havia surgido outra deusa mais luminosa do que ela.

A festa lhe deu uma coisa que os argumentos não tinham dado: uma forma de se aproximar sem precisar anunciar que estava voltando.

Ela não precisava perdoar o irmão. Não precisava explicar por que havia se escondido. Não precisava dizer que os outros deuses estavam certos. Podia apenas abrir uma fresta para olhar.

A gente costuma desconfiar desses pequenos pretextos. A mensagem sobre uma receita depois de meses de silêncio. A fotografia enviada no meio de uma briga. A pergunta prática que chega antes do pedido de desculpas. O café deixado ao lado de alguém com quem ainda não sabemos conversar.

Parece pouco. Parece uma maneira de evitar o assunto verdadeiro.

E às vezes é.

Mas também existem conversas que só conseguem chegar ao assunto verdadeiro depois que alguém encontra uma maneira de voltar para perto.

Nem toda reconciliação começa com coragem suficiente para dizer tudo. Algumas começam com uma frase que não fala de nada importante. Duas pessoas conversam sobre o trânsito, sobre uma criança, sobre alguma coisa que viram na rua. O motivo do afastamento continua ali, mas já não ocupa sozinho todo o espaço entre elas.

O gesto pequeno não resolve o que aconteceu. Só interrompe a distância.

Talvez o espelho na entrada da caverna também importe por isso. Quando Amaterasu olhou pela fresta, não viu primeiro o mundo que havia deixado no escuro. Viu o próprio rosto.

Depois de muito tempo escondidos, talvez seja disso que a gente precise antes de qualquer explicação: reconhecer que ainda existe uma versão nossa do lado de fora daquela decisão.

Já retomei conversas por caminhos que pareciam pequenos demais. Respondi a uma fotografia. Fiz uma pergunta qualquer. Falei de alguma coisa que estava passando na televisão.

Por algum tempo, ninguém perguntou por que eu tinha desaparecido. Falamos apenas da fotografia.

A caverna continuou sem nome. Mas eu já não estava inteiramente dentro dela.

A próxima carta

Toda semana, uma história antiga e uma carta escrita a partir dela. A carta chega por e-mail antes de aparecer aqui.