A Pequena Sereia

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Para quando você percebe que parou de explicar o que queria.

O que você continua adiando para um dia que nunca teve data?

Uma sereia aceita perder a própria voz para viver em terra.

Frame do filme Quando

A história

No conto de Hans Christian Andersen, publicado em 1837, a filha mais nova do rei do mar espera completar quinze anos para ter permissão de subir à superfície pela primeira vez.

Quando sobe, vê um navio e, dentro dele, um príncipe. À noite vem a tempestade. O navio afunda e ela o salva, deixando-o na areia de uma praia. Ele acorda e vê outra moça. Acredita que foi aquela moça quem o salvou.

Ela volta para o mar e não consegue mais viver ali. Procura a bruxa das profundezas e faz uma troca: entrega a própria voz e recebe pernas humanas. A bruxa avisa que cada passo doerá como pisar em lâminas, e que, se o príncipe se casar com outra, ela se desfará em espuma na manhã seguinte.

Ela aceita. Sobe à terra sem voz. Vive no palácio, dança apesar da dor, e o príncipe gosta dela como se gosta de uma criança silenciosa.

Ele se casa com a moça da praia.

Na noite do casamento, as irmãs da sereia sobem à superfície com uma faca. Cortaram os próprios cabelos para trocá-los com a bruxa. Se ela matar o príncipe e o sangue dele tocar seus pés, volta a ser sereia.

Ela desce até o quarto, olha os dois dormindo e joga a faca ao mar.

Ao amanhecer, se desfaz em espuma.

O filme

Um minuto diante de uma parte da história.

Quando · 0:53

A carta

Quando essa história encontra uma vida de agora.

Quando

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Me peguei dizendo uma palavra que já devo ter repetido centenas de vezes.

Quando.

Quando eu terminar esse curso. Quando eu mudar de trabalho. Quando as crianças crescerem. Quando eu tiver mais tempo.

Ela parece prometer sempre a mesma coisa. Que a vida começa logo depois.

A Pequena Sereia voltou por causa dessa palavra.

Desta vez não consegui parar de pensar na voz.

Porque a bruxa podia ter cobrado qualquer coisa. A cauda. Anos de vida. A própria beleza.

Cobra a voz.

E a sereia aceita.

Ela chega ao lugar onde acreditava que a vida finalmente começaria. E não consegue dizer uma palavra.

Não consegue contar quem é. Não consegue explicar o que a trouxe até ali. Nem dizer que foi ela quem salvou aquele homem do mar.

Chegou.

E chegou muda.

Fiquei nessa troca por um tempo, porque ela me pareceu familiar de um jeito incômodo.

A gente costuma achar que adiar custa tempo.

Talvez não seja só isso.

Existe uma coisa que acontece com um desejo mantido no futuro por tempo demais.

Ele para de precisar ser dito.

Você diz que um dia vai voltar a pintar. A conversa segue. Ninguém pergunta o quê. Nem por quê. Nem o que você sente quando faz aquilo.

Então a frase encurta.

Vira uma promessa rápida. Uma coisa que cabe em quatro palavras ditas numa mesa de jantar.

E o que não é dito por muito tempo vai perdendo o vocabulário.

Até que o quando finalmente chega.

O tempo aparece. O curso termina. Os filhos crescem.

E a pessoa senta diante daquilo que esperou a vida inteira sem saber mais dizer por que aquilo era tão importante.

Não é que o desejo tenha morrido.

É que passou tanto tempo sem precisar de palavras que perdeu as que tinha.

Hoje já não pergunto quanto tempo essa palavra está me custando.

Pergunto quantas frases eu ainda sei dizer sobre aquilo que estou adiando.

A próxima carta

Toda semana, uma história antiga e uma carta escrita a partir dela. A carta chega por e-mail antes de aparecer aqui.