A história
A fábula é contada em várias tradições, e a origem é disputada. Aparece atribuída aos quíchuas da América do Sul, aos haida do Pacífico Norte e, em algumas versões, ao Japão. Ficou conhecida no mundo inteiro pela voz da ativista queniana Wangari Maathai, que a contava em conferências.
Uma floresta pega fogo.
Todos os animais correm para fora e param na borda, olhando o incêndio. São grandes, fortes, e nenhum deles pode fazer coisa alguma contra aquilo.
Só um beija-flor voa na direção contrária.
Vai até o rio, mergulha o bico, pega uma gota e a lança sobre as chamas. Depois volta ao rio e faz tudo de novo.
O tatu, ou o elefante, dependendo de quem conta, pergunta se ele acha mesmo que vai apagar aquele incêndio sozinho.
O beija-flor não responde.
Volta para a água.
A fábula termina aí. Não se conta o que aconteceu com o fogo.
O filme
Um minuto diante de uma parte da história.
A distância até o rio · 1:10
A carta
Quando essa história encontra uma vida de agora.
A distância até o rio
Ouvir a carta
Todo domingo ela vai ver a mãe.
A mãe não sabe mais quem ela é.
Chama por outro nome. Pergunta as mesmas coisas três vezes na mesma tarde. Às vezes se assusta com aquela mulher desconhecida sentada perto demais.

Ela chega. Senta. Conta como foi a semana. Corta a fruta. Arruma o cabelo dela.
E, no domingo seguinte, faz tudo de novo.
Alguém perguntou a ela, com todo o cuidado do mundo, se aquilo ainda fazia sentido.
Não foi maldade. Era uma pergunta razoável.
Acho que é justamente por ser razoável que ela dói.
Fiquei alguns dias com um pássaro na cabeça.
Aquele beija-flor da fábula, o que atravessa uma floresta em chamas carregando uma gota de água no bico.
Todos os animais correm para um lado. Ele vai para o outro.
Chega ao rio. Pega uma gota. Volta. Joga sobre o fogo.
E faz tudo de novo.
Até que um animal pergunta se ele realmente acredita que vai apagar aquele incêndio.
O beija-flor não responde.
Volta para o rio.
Costumam contar essa história para dizer que cada um deve fazer a sua parte.
Mas tem uma coisa que a fábula nunca conta.
Ela não diz se o fogo apagou.
Nenhuma versão diz.
O incêndio continua lá quando a história termina.
E talvez seja justamente essa a parte mais honesta.
Porque quem carrega água sabe.
Sabe o tamanho do incêndio. Sabe o tamanho da própria gota.
Ela também sabe.
Sabe que a mãe pode não dizer seu nome no próximo domingo. Que pode contar como foi a semana e ouvir a mesma pergunta cinco minutos depois. Que pode arrumar o cabelo dela e, pouco tempo depois, aquela tarde inteira já não existir na memória da mãe.
E mesmo assim vai.
Não porque espere que um domingo finalmente mude alguma coisa.
Vai porque é a mãe dela.
A gente confunde amor com esperança porque os dois costumam andar juntos.
A gente ama e espera que melhore. Ama e espera que volte. Ama e espera que dê certo.
Mas nem sempre o amor pode pedir isso ao futuro.
Às vezes ele só pode fazer alguma coisa hoje.
Sentar perto. Cortar a fruta. Arrumar um cabelo. Buscar outra gota.
A pergunta se ainda faz sentido procura um resultado.
Quem ama pode estar em outro lugar.
Não sei o que a mãe dela guarda daqueles domingos.
Talvez muito pouco. Talvez nada.
Mas isso não faz com que eles não tenham acontecido.
Ela esteve ali. A fruta foi cortada. O cabelo foi arrumado. Por algumas horas, alguém ficou ao lado dela.
Existe alguma coisa muito bonita em um gesto que não exige ser lembrado para ter valido.
Ninguém nunca contou se o fogo apagou.
Contaram que o beija-flor voltou para a água.
E depois voltou outra vez.
A próxima carta
Toda semana, uma história antiga e uma carta escrita a partir dela. A carta chega por e-mail antes de aparecer aqui.
