Tanabata

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Para quando você sente que chegou tarde demais para alguma coisa.

Sobre o que você diz “isso já não é mais para mim”?

Dois amantes separados pela Via Láctea recebem uma única noite por ano para se encontrar.

Frame do filme O pedaço de papel em branco

A história

Tanabata é uma festa japonesa celebrada em julho, herdada de uma história chinesa muito antiga.

Orihime era tecelã. Fiava tecidos às margens do rio celeste, a Via Láctea, e o pai dela, o rei do céu, admirava aquele trabalho. Vendo que a filha não tinha vida além do tear, apresentou-a a Hikoboshi, um pastor que cuidava do gado do outro lado do rio.

Os dois se casaram. E, casados, pararam.

Ela não teceu mais. Ele deixou o gado se espalhar pelo céu.

O pai então os separou, cada um numa margem da Via Láctea, e determinou que só poderiam se encontrar uma vez por ano, na sétima noite do sétimo mês.

Na primeira vez que tentaram atravessar, não havia ponte. Orihime chorou tanto que um bando de pegas desceu e formou uma ponte com as asas. Desde então, elas voltam todo ano.

Mas se chover naquela noite, o rio transborda, as pegas não vêm, e os dois esperam mais um ano.

Todo verão, no Japão, as pessoas escrevem desejos em tiras de papel coloridas, chamadas tanzaku, e as penduram em ramos de bambu.

O filme

Um minuto diante de uma parte da história.

O pedaço de papel em branco · 1:12

A carta

Quando essa história encontra uma vida de agora.

O pedaço de papel em branco

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"Ah, isso já não é mais para mim."

A pessoa falava de um sonho antigo. Não de uma impossibilidade, nem de uma coisa que tivesse dado errado. Só de uma coisa que, em algum momento, ela deixou de se permitir querer.

A conversa seguiu. A frase ficou.

Porque ela não dizia que o sonho tinha acabado.

Dizia que ela já não se sentia a pessoa que podia escrevê-lo.

Foi a semana em que reli sobre o Tanabata.

Todos os anos, no Japão, as pessoas escrevem um desejo num pequeno pedaço de papel. Depois prendem esse papel a um galho de bambu. O vento faz o resto.

A gente olha para esse costume pensando na realização dos desejos.

Fiquei presa antes disso.

No instante em que alguém pega um papel em branco.

Porque ninguém escreve um desejo sabendo que ele vai acontecer. Também não escreve porque acredita que merece mais do que os outros.

Escreve porque, por alguns minutos, aceita voltar a desejar.

E a vida ensina muitas coisas.

Ensina a calcular. Ensina a esperar. Ensina a se proteger.

Sem perceber, a gente começa a examinar os próprios desejos antes de deixá-los existir. Passa cada um por um teste antes que ele chegue ao papel.

Isso não faz sentido.

Já passou.

Não é mais para mim.

Nenhum desses desejos chega a ser recusado. Eles são retirados antes.

O papel continua em branco, e a pessoa que está ali segurando o papel acredita que não tinha nada para escrever.

Talvez o gesto mais difícil do Tanabata não seja desejar.

Seja aceitar escrever.

Porque, no instante em que o papel deixa de estar em branco, o desejo deixa de existir só dentro da gente.

Ele passa a existir no mundo, onde qualquer um pode ler.

A próxima carta

Toda semana, uma história antiga e uma carta escrita a partir dela. A carta chega por e-mail antes de aparecer aqui.