Cinderela

ContosEscolherPertencer

Para quando você não sabe quanto daquilo foi você.

Quem abriu a porta que mudou a sua vida?

Uma noite inteira é construída com coisas emprestadas e termina deixando apenas um sapato para trás.

Frame do filme O que foi emprestado

A história

A versão mais conhecida é a de Charles Perrault, publicada em 1697.

Uma menina perde a mãe. O pai casa de novo, com uma mulher que tem duas filhas. Quando o pai morre, ela fica na casa como criada. Dorme perto das cinzas da lareira, e é daí que vem o nome pelo qual passam a chamá-la.

O rei anuncia um baile de três noites para o filho escolher esposa. As irmãs se vestem e vão. Ela fica.

Aparece a madrinha, que é fada. Transforma uma abóbora em carruagem, ratos em cavalos, os trapos em vestido, e dá a ela um par de sapatos de cristal. Impõe uma condição: à meia-noite tudo volta ao que era.

No baile, o príncipe dança só com ela. Ninguém a reconhece. Ela sai correndo antes da última badalada e perde um sapato na escada.

O príncipe manda percorrer o reino. O sapato será provado em todas as moças, e ele se casará com aquela em cujo pé servir.

Na casa, as duas irmãs provam. Não serve em nenhuma.

Ela pede para provar. As irmãs riem.

Serve.

O filme

Um minuto diante de uma parte da história.

O que foi emprestado · 1:02

A carta

Quando essa história encontra uma vida de agora.

O que foi emprestado

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"Se não fosse aquela pessoa, eu nunca teria chegado até aqui."

Achei bonita a frase quando ouvi. Depois ela ficou comigo por outro motivo.

Fiquei pensando em tudo o que outra pessoa realmente pode fazer por nós.

Abrir uma porta. Fazer uma apresentação. Dar uma oportunidade. Ensinar um caminho. Emprestar coragem quando a nossa falta.

Às vezes uma vida muda inteira por causa de um gesto desses.

Dias depois lembrei da Cinderela.

A gente conta essa história como conto de fadas. Mas, olhando com calma, quase tudo o que muda a vida dela chega pelas mãos de outra pessoa.

A madrinha faz o vestido. Faz a carruagem. Os cavalos. O cocheiro. Até o tempo da magia.

Quando ela sai correndo, nem o sapato perdido foi escolha. Foi só o que ficou.

Sempre achei curioso que a história termine justamente aí, porque ela nunca responde a uma pergunta simples.

O que, naquela noite, era realmente dela?

Voltei cena por cena tentando encontrar alguma coisa. No fim percebi que quase tudo podia ter sido emprestado.

Menos uma.

A madrinha fez o vestido.

Mas não fez o sapato servir.

O príncipe procurou.

Mas não escolheu o tamanho do pé.

Aquilo já existia antes da carruagem. Antes do baile. Antes da magia. Já estava lá quando ela ainda limpava a cozinha.

E isso não diminui ninguém.

Existem portas que nunca abriríamos sozinhos. Existem encontros que só acontecem porque alguém nos apresentou. Existem oportunidades que chegam como presente.

Tudo isso é real.

Mas ninguém consegue emprestar aquilo que faz o sapato servir.

Nem talento. Nem sensibilidade. Nem a maneira de olhar para o mundo. Nem aquilo que reconhece um lugar quando finalmente chega até ele.

Os presentes mudam o caminho.

Não inventam quem caminha.

Quase tudo naquela noite foi emprestado.

O pé, não.

A próxima carta

Toda semana, uma história antiga e uma carta escrita a partir dela. A carta chega por e-mail antes de aparecer aqui.