A Borboleta

FábulasMudar

Para quando perguntam o que você vai fazer e você não sabe.

Você consegue atravessar o meio sem saber como será o fim?

Dentro de uma crisálida imóvel, quase tudo o que existia antes deixa de ter a mesma forma.

Frame do filme Ainda não sei

A história

A transformação da lagarta em borboleta atravessa fábulas e histórias há séculos, de Esopo a La Fontaine, quase sempre como lembrete de que a aparência não conta a história inteira.

O que acontece dentro do casulo é o seguinte.

A lagarta come, cresce e troca de pele várias vezes. Quando chega a hora, prende-se a um galho e forma a crisálida.

Ali dentro, ela não vai ganhando asas aos poucos. O corpo da lagarta se desfaz quase inteiro, dissolvido pelas próprias enzimas, e vira uma massa sem forma definida.

Sobrevivem a esse processo alguns grupos de células que existiam desde o início, guardados sem função aparente. É a partir deles que se organizam as asas, as antenas, as patas, os olhos.

Por fora, o casulo continua parado no galho, do mesmo jeito, durante todo o tempo que isso leva.

Depois a borboleta rompe a casca e sai. As asas saem amassadas e molhadas. Ela precisa ficar imóvel enquanto o líquido as preenche e elas endurecem.

Só então voa.

O filme

Um minuto diante de uma parte da história.

Ainda não sei · 0:42

A carta

Quando essa história encontra uma vida de agora.

Ainda não sei

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Alguém me perguntou esses dias o que eu ia fazer agora.

A pergunta era simples. Demorei mais para responder do que imaginei.

Não porque estivesse escondendo alguma coisa. Só porque, pela primeira vez em muito tempo, eu realmente não sabia.

"Ainda não sei."

A resposta ficou comigo por dias. Ela parecia incompleta, como se eu devesse chegar ao fim da frase e explicar alguma coisa.

Mas não havia explicação.

Foi quando a borboleta apareceu.

A gente lembra do começo e do fim. A lagarta. A borboleta. Existe um pedaço enorme dessa história que quase nunca aparece.

Dentro do casulo, ela não vai ganhando asas aos poucos.

Antes disso, deixa de existir como era.

O corpo se desfaz quase inteiro. Durante um tempo, não é exatamente uma coisa. E ainda não é a outra.

Não existe nome para o que está ali dentro naquele intervalo.

E a vida adulta conhece bem esse lugar.

Um trabalho termina. Uma cidade fica para trás. Um casamento muda. Os filhos crescem.

De repente, a pessoa que existia naquela vida também já não existe do mesmo jeito. Só que a próxima ainda não chegou.

Por fora, o casulo continua parado no galho. Do mesmo jeito, o tempo todo.

E é por fora que as perguntas continuam chegando.

E agora?

Já decidiu?

O que você vai fazer?

Por dentro, ainda não existe uma resposta verdadeira para dar.

Ainda não sei.

A próxima carta

Toda semana, uma história antiga e uma carta escrita a partir dela. A carta chega por e-mail antes de aparecer aqui.