O Gato de Botas

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Para quando você está esperando ser chamado.

O que você está esperando que alguém autorize?

Um gato começa a atravessar estradas e portões sem que ninguém o tenha convidado.

Frame do filme Ninguém chamou

A história

A versão de Charles Perrault foi publicada em 1697.

Um moleiro morre e deixa três filhos. O mais velho fica com o moinho. O do meio, com o burro. O mais novo fica com o gato.

O rapaz reclama em voz alta que vai morrer de fome depois de comer o gato e fazer um par de luvas com a pele.

O gato ouve, e pede duas coisas: um saco e um par de botas.

Com o saco, caça coelhos e perdizes, e leva ao rei dizendo que são presentes do marquês de Carabás. Faz isso durante meses. O rei nunca ouviu falar desse marquês, mas aceita os presentes.

Um dia, sabendo que o rei vai passar de carruagem à beira do rio, o gato manda o rapaz se banhar ali. Esconde as roupas dele e grita que o marquês de Carabás está se afogando e foi roubado. O rei manda buscar roupas da corte e o convida a subir na carruagem.

Enquanto seguem, o gato corre à frente e ameaça os camponeses do caminho: quando o rei perguntar de quem são aquelas terras, digam que são do marquês de Carabás. Todos dizem.

As terras pertencem a um ogro que sabe se transformar. O gato o visita, elogia o dom e pede uma demonstração: um leão. O ogro vira leão. Depois elogia de novo e duvida que ele consiga virar algo pequeno, como um rato.

O ogro vira rato. O gato o come.

Naquela noite, o rei oferece a filha em casamento ao marquês de Carabás.

O filme

Um minuto diante de uma parte da história.

Ninguém chamou · 1:14

A carta

Quando essa história encontra uma vida de agora.

Ninguém chamou

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Em quase toda sala de palestra, as primeiras fileiras ficam vazias.

Ninguém proibiu. Não tem reserva, não tem nome nas cadeiras, não tem alguém na porta decidindo quem senta onde.

As pessoas entram, olham para frente e vão para o meio.

Reparei nisso numa manhã dessas, num auditório em que eu também estava indo para o meio.

Dias depois lembrei do Gato de Botas.

O moleiro morreu e o filho mais novo ficou com um gato e quase nada além disso.

O gato pede um par de botas e sai andando.

Atravessa campos que não são dele. Estradas que não são dele. Portões que não são dele.

Ninguém o apresentou. Ninguém escreveu uma carta. Ninguém foi na frente dizer que ele podia entrar.

Mesmo assim ele entra.

Não me interessam as mentiras que ele conta, nem os truques.

Me interessa o passo.

Porque a maior parte da gente aprendeu o contrário.

Primeiro a credencial, depois a oportunidade. Primeiro o diploma, depois a confiança. Primeiro alguém reconhece, e só então você ocupa o lugar.

Em muitos caminhos isso faz sentido.

Mas existe um ponto em que a espera deixa de ser prudência e vira hábito.

Você já estudou, já trabalhou, já fez o que precisava fazer, e continua parado na porta esperando alguém dizer que agora pode.

Ninguém aprende a esperar sozinho.

Alguém ensinou.

Alguém que te amava e tinha medo do que ia acontecer se você chegasse cedo demais em algum lugar. Que já tinha sido humilhado numa sala onde entrou sem ser chamado. Que preferia te ver esperando do que te ver constrangido.

Não se ofereça.

Espera te convidarem.

Não seja a pessoa que forçou.

Foi cuidado. Naquela época provavelmente estava certo.

Mas o aviso ficou depois que o perigo passou.

E tem uma coisa nessa espera que demorei a admitir.

Ela é confortável.

Quem espera ser chamado nunca descobre que não seria chamado.

Enquanto você está na fila, a resposta ainda não veio. Você continua sendo alguém que talvez fosse escolhido, e ninguém pode tirar isso de você.

No momento em que você entra sem ser convidado, o veredito acontece. Pode dar certo, pode dar muito errado, mas vai acontecer na sua frente e com o seu nome.

Esperar não é só obediência.

É seguro contra a resposta.

Talvez seja por isso que a irritação apareça.

Você vê alguém entrar sem pedir licença e sente uma coisa que não é admiração. A pessoa não pagou o pedágio que você pagou, não esperou o que você esperou, passou pelo portão que você respeitou a vida inteira.

Só que ela também aceitou uma coisa que você não aceitou.

Ela aceitou descobrir.

E aqui não estou falando de portas trancadas. Existem muitas, e nenhum par de botas resolve.

Estou falando das outras.

Daquelas em que não tem ninguém encarregado de dizer nomes.

As primeiras fileiras não ficam vazias porque alguém proibiu.

Ficam vazias porque, sentado ali, você é visto.

A próxima carta

Toda semana, uma história antiga e uma carta escrita a partir dela. A carta chega por e-mail antes de aparecer aqui.