Narciso

MitosAmarContinuar

Para quando alguma coisa terminou por fora e não terminou dentro.

Do que você não consegue se afastar, mesmo já sabendo o que é?

Um jovem passa dias diante de um rosto que aparece e desaparece na superfície da água.

Frame do filme Ainda volto

A história

O relato mais completo está nas Metamorfoses, de Ovídio.

Narciso era filho de uma ninfa e de um deus-rio. Quando nasceu, o adivinho Tirésias foi consultado sobre o futuro dele e respondeu que viveria muito, desde que nunca conhecesse a si mesmo.

Cresceu bonito a ponto de ser desejado por quem passasse. Recusou todos. Entre eles a ninfa Eco, condenada a só repetir as últimas palavras que ouvia, que o seguiu pela floresta sem conseguir falar primeiro. Quando enfim se mostrou, ele a afastou. Eco se escondeu nas cavernas até sobrar apenas a voz.

Um dos rapazes rejeitados pediu aos deuses que Narciso amasse e não pudesse alcançar o que amava.

Cansado de caçar, ele se deitou à beira de uma fonte para beber. Viu um rosto na água e se apaixonou.

Esticou a mão. A superfície se desmanchou. Esperou que voltasse a se formar, e esticou a mão de novo.

Passou dias assim, falando com aquele rosto, sem comer e sem dormir, sofrendo por um amor que acreditava ser de outra pessoa.

Até o momento em que entendeu: sou eu.

Ovídio escreve que ele entendeu, e ficou.

Continuou ali, ao lado da água, até morrer. No lugar do corpo, encontraram uma flor.

O filme

Um minuto diante de uma parte da história.

Ainda volto · 1:12

A carta

Quando essa história encontra uma vida de agora.

Ainda volto

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Tem uma hora da noite em que a pessoa abre a conversa de novo.

Não porque esqueceu o que está escrito. Já sabe de cor. Sabe onde começa a discussão, onde alguém foi injusto, onde ainda havia esperança. Sabe até a última mensagem, aquela que parece diferente cada vez que é lida.

Mesmo assim volta.

E ninguém abre esperando encontrar uma informação nova. A conversa não mudou desde a última vez. Nada ali vai dizer outra coisa.

Andei relendo Narciso por causa disso.

A história é conhecida. O rapaz bonito, o lago, o reflexo. O que quase nunca fica na memória é que o sofrimento dele não termina quando ele descobre a verdade.

Ele passa dias apaixonado por alguém que acredita existir do outro lado da água. Estica a mão. A superfície se desfaz. Espera. A água volta a ficar lisa. Tenta outra vez.

Até que entende.

Sou eu.

É uma frase pequena, quase decepcionante. A gente imagina que seria ali o momento em que ele se levanta e vai embora.

Mas Ovídio continua escrevendo.

Ele fica.

Demorei a entender por que essa parte me incomodava tanto. Achei durante um tempo que fosse teimosia, ou fraqueza, ou alguma coisa parecida com vício.

Hoje acho que é mais simples do que isso.

Enquanto ele estiver ali, aquilo ainda não acabou.

O lago não devolve nada de novo, mas devolve. Continua havendo um rosto, continua havendo o que olhar, continua havendo alguma coisa acontecendo entre ele e a água. É pouco. Mas é uma cena que segue existindo.

No instante em que ele se levanta e vai embora, a história termina de verdade. E termina sem nenhuma conclusão. Ninguém explica nada, ninguém pede desculpa, ninguém devolve o que ele achou que tinha encontrado.

Ir embora exige aceitar que não vai existir uma última conversa que organize tudo.

Nenhuma frase final. Nenhum gesto que feche direito. Nenhuma versão em que aquilo passe a fazer sentido do começo ao fim.

Isso é muito para pedir de alguém numa quinta-feira à noite.

Então a pessoa abre a conversa outra vez. Lê tudo de novo, sabendo o que está escrito. E adia por mais alguns minutos a única coisa que ainda falta acontecer.

Não volta para descobrir uma coisa nova.

Volta porque, enquanto estiver ali, aquilo ainda não terminou.

A próxima carta

Toda semana, uma história antiga e uma carta escrita a partir dela. A carta chega por e-mail antes de aparecer aqui.